Guia Universo Paralello para não-tranceiros / by Bruna Brandão

Era inevitável. Toda pessoa que eu contava sobre minha ideia de passar  a virada de ano no UP entortava o nariz ou fazia uma piadinha sobre como eu ainda estava com o espírito jovem para aguentar quase nove dias de fritação ininterrupta rodeada de ravers. Admito que a impressão que tinha antes de conhecer o festival era um pouco essa. Eu nunca tinha ido em uma ~rave~ tão grande, mas na minha cabeça seriam dias de tuntstunts debaixo daquele campo de guerra com decorações psicodélicas de mal gosto, malabares e afins.

A grande jogada do Universo é que ele é tudo isso, mas também um tanto bocado mais que isso. É sim, um festival de música, de cultura alternativa, um grande encontrão tilelê, mas também é um universo paralelo que você tem a oportunidade de habitar durante alguns preciosos dias que ocorrem a cada dois anos na praia de Pratigi, litoral baiano.

Com a humilde porém considerável experiência que tenho com festivais de música, acampamentos e folias no meio do nada, esse festival ganhou meu coração ultrapassando desde os mainstream como Glastonbury, quanto os ladoB micro como Ressonar, Festival das Águas e Voodoohop. Ainda não tenho certeza do que faz o festival ser tão especial, mas vou tentar desembolar sobre as coisas que me conquistaram durante esse rolê.

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se plante na pista

O mais engraçado do UP é que ele é um festival completamente regido pela natureza, em especial o sol. Uma coisa que você tem que saber antes de ir é uma máxima: não existe sombra em toda a extensão de 15 km da costa em que acontece o festival. Ou melhor, até existe, mas essa sombra é dentro da sua barraca que vai estar assando na sensação térmica de 50º ou então nas pistas de dança. É essa sombra da pista de dança que salva o rolê e deixa toda a experiência mais bizarra: a regra do UP é morar na pista! Você dorme, acorda, almoça, toma banho e tem as melhores noites (e dias) na pista de dança. Dos dias que passei no festival, apenas uns 2 ou 3 eu dormi na barraca, sendo que a maioria desses eu dormi no chill out por escolha própria - mesmo sendo de noite e a minha barraca estando fresquinha e aconchegante, vai entender...

Seis das sete pistas são de frente pro mar, isso significa que você pode curtir toda a festa e os melhores DJs de dentro d’água bem sereiosa ou bem plena passando a tarde inteira na praia com pessoas alto astral.

Eu gosto de brincar também que o festival é uma experiência de quase-morte. Além das experiências espirituais e paralelas super intensas, você tem que estar 100% ligado no seu corpo, senão você morre. É sério! Nove dias de sol da bahia na cara o tempo todo, dançando, festa, bebendo, dormindo pouco, alimentação desregulada e as vezes nem banho você toma. É uma experiência muito extrema para o corpo humano. Querido, se você se esquecer do protetor solar durante uma parte do dia ou não tomar pelo menos um litro de água logo de manhã, você se arrisca a perder todos os outros dias de festa. Não é à toa que o pessoal comenta por aí da “dieta Universo Paralello” por que é impossível não perder alguns quilos durante o festival, o corpo seca nessa experiência no limite. Cuide do seu corpo o tempo todo e lembre os seus amigos de se cuidar. Tenha orgulho de ser o fiscal da hidratação do rolê. Redução de danos é vida ♥

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indo para o UP sozinha

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Quem já me conhece um pouquinho sabe que eu sou super entusiasta de cair no mundão por conta própria. Viajar sozinha sempre deixa minhas experiências mais intensas, minha cabeça mais livre e minhas vontades soltas para seguir à flor da pele em momentos em que só eu mando no meu próprio tempo. Sim, viaje sozinha e viaje agora!

Mas, como mulher, eu sempre tento ter mais cuidados e para o Universo Paralello não foi diferente. Tenha sempre alguém em vista, mesmo que seja o amigo de um amigo de uma colega de trabalho; qualquer pessoa que você possa recorrer caso algo aconteça. Nesse caso, alguns conhecidos de pessoas queridas iam para o festival e combinei com eles de montar o acampamento juntos. Depois dos nove dias já tinha ganhado uma família ♥ não poderia ter pessoas mais incríveis do meu lado durante esse tempo. Essa gangue realmente sincronizou e deixou a experiência mega especial.

Eu achei um festival meio complicado de se ir sozinha pois são muitos dias, e é sempre bacana fechar um grupo para cuidar um do outro e montar a vila de barracas perto. Além disso, é um festival com muita galera maravilhosa, mas por ser gigante é também um pouco perigoso. Infelizmente é normal ouvir história de roubo de barracas, eu mesma tive a minha saqueada durante a noite de ano novo (malditos hippies roubaram minha escova e pasta de dentes, além de um ipad que tinha deixado na mochila dentro da barraca por vacilo meu).

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A dica é mega simples: não leve coisas de valor, e o que levar carregue sempre na sua pochete. Às vezes suas coisas vão estar mais seguras presas ao seu corpo, mesmo que seja um corpo na vida loka. Como dica, talvez valha a pena dividir um locker com os amigos para guardar dinheiro e coisas de valor, mas os preços são bem altos tipo 300 conto, e é sempre um missão andar até o locker para buscar e guardar as coisas (no festival as coisas ficam a quilômetros de distância debaixo do sol). Rola até história de uma galera que enterra o dinheiro na areia debaixo da barraca e eu achei a técnica super válida haha, sobrevivência é mato!

Falando em sobrevivência, acho que pode ser útil deixar aqui uma lista bem prática do que levar para esses 9 dias de rolezão marlindo!

  • canga - vai ser sua roupa e sua cama na maior parte do tempo;

  • pochete - braços livres é um caminho sem volta!

  • protetor solar que caiba na pochete - salvou minha vida;

  • bucha para banho - acredite, sua pele vai formar uma camada grossa de protetor, terra, areia, sal e suor que vai ser impossível de tirar só com o sabonete;

  • cadeira de praia - tem hora que as costas pedem arrego e a sensação mais maravilhosa é se recostar. Você só poderá vivenciar esse moments se você levar sua própria cadeira de praia (eu tava menosprezando a utilidade desse item mas vale muito a pena!). É bom também para esperar nas filas do banho, mas lembre-se sempre: cadeira no meio da pista de dança, não!

  • sombrinha de praia - pode parecer item ostentação, mas vai salvar sua pele! e suas tardes delícia de praia em frente ao palco Tortuga #dica

  • dinheiro vivo! - o grande erro que cometi foi levar pouco dinheiro vivo. Os bares até passam cartão, mas dentro do UP tem várias feirinhas com coisas maravilhosas que você só vai encontrar lá. Repito: várias coisas maravilhosas! Coisas diversas! Leve bastante dinheiro em espécie para depois não se arrepender do que não comprou.

 

o melhor lugar do mundo é aqui e agora!

Você não só vai ter essa certeza durante vários momentos do festival, como também vai ver isso estampado na cara das pessoas ao seu redor. Talvez o que pesou mais para todo o festival ser mágico é estar rodeada por milhares de pessoas que também estão vivendo dias maravilhosos em sua plenitude!

 foto: coletiva.a.mente | https://www.facebook.com/universoparalelloofficial

foto: coletiva.a.mente | https://www.facebook.com/universoparalelloofficial

Tem os tilelê roots, tem as miga gata, tem as gay, os coxa kdmia, os darkzêra psy, os gringo sem noção, as família alternativa com crianças - todos eles convivendo em completa harmonia e good vibes como se fosse uma grande propaganda lisérgica do governo. O que vi muito no UP é a galera se colaborando, se ajudando e respeitando super o espaço do outro para ninguém se atrapalhar. Como se cada um fizesse questão que o outro tivesse um dia lindo como o que ele próprio está vivendo.

Além disso, como meus migos sempre falavam: os DJs que se apresentam no UP estão tocando o set da vida deles! Tocar no Universo Paralello é um grande moment para os artistas também, então prepare-se para alucinar com muita música boa!

E não é só eletrônico não, viu? O festival é todo pensado para ser bem democrático e ter espaços para equilibrar a cabeça em diversos tipos de música.

E claro, vamos para as pistas! O UP se divide em sete pistas principais, além de umas quebradinhas surpresa no meio do mato.

chill out: a good vibes em forma de pista, mas como o próprio nome já diz, é bem chill. Ótima para relaxar ouvindo um bom som. Muito reggae, jazz e tilelezagem musical. Era minha pista preferida pra conversar com as miga, tomar café da manhã, dormir ou ficar olhando pro céu.

 Palco Tortuga visto de cima foto: https://www.facebook.com/universoparalelloofficial

Palco Tortuga visto de cima foto: https://www.facebook.com/universoparalelloofficial

tortuga: tortuga, ladrão, roubou meu coração! não consigo nem disfarçar, o palco tortuga foi o meu preferido. Bem lindão, muita sombra, chuveiro na praia e chope IPA num festival patrocinado pela skol. Parecia até uma miragem! Durante os dias rolavam lindos sets de house, techno, trap puxando pro hip hop e até umas batidas mais funkzinho - um lugar para os entusiastas do grave ♥ mas admito que era um role bom durante o dia, de noite às vezes ficava meio vazio. Então nossa estratégia era ir pro…

UP club: pista clubber, sempre cheia, sempre animada! Tive ótimas noites por lá apesar de, dependendo do DJ, a vibe ficar um pouco balada top. Mas admito que numa praia daquelas, pouquíssimas coisas me incomodavam. Era também a pista mais gay friendly, então sempre esbarrava uma galera alto astral.

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main floor: campo de guerra com direito a nuvem de poeira e tudo mais. É a pista trance que deu origem ao festival; disk nos primórdios, o UP era apenas um grande mainfloor cheio de tranceiros pipocando. Eu não sou muito da trance, mas tive poucos e bons dias no main. É necessário ter saúde. É a pista mais bonita, mais cheia, mais quente e a única que não está a beira-mar; mas é também onde as grandes atrações se apresentam.

303: praticamente um palco voltado para abduções alienígenas e entusiastas da darkzêra. Me desculpem o preconceito, mas meu corpo e mente ainda não conseguem assimilar o psytrance/prog/dark. As batidas são muito rápidas, não dá pra dançar e parecia que eu estava sendo sugada para um túnel de badtrips. Não foi desta vez 303 :(

circulou: o palco tilelê da ioga, ayurveda, rodas de conversa e meditação. A melhor coisa foi montar o acampamento perto da praia no circulou, só me arrependo de ter participado pouco da programação maravilhosa que esse espaço propõe dentro do festival.

palco paralello: praticamente um festival dentro de outro, esse é o palco de shows - um refúgio de contato com a realidade. Lá eu assisti a pancada que foi o show do Black Alien, além de Russo Passapusso, Otto, Zimun e um bocado mais de coisas boas ao vivo.

 

últimas dicas, jogo rápido:

acampe na praia

chegue de noite na fila para entrar no festival

beba água

leve alguma birita mocada na mochila

boca fechada pra tomar banho

tire pelo menos uma foto

não precisa de celular

 

nos vemos lá em 2019-2020!

 tire pelo menos uma foto!

tire pelo menos uma foto!