Furacão Irma em Cuba - eu estava lá / by Bruna Brandão

 
Fim de tarde no malecón, a beira-mar de Havana.

Fim de tarde no malecón, a beira-mar de Havana.

A ficha foi cair mesmo pelo fim da tarde de sexta-feira. Ariel, o barman simpático que estava fazendo nossos mojitos, nos avisou que estava fechando em breve e começou a guardar todas as garrafas das prateleiras do bar em caixas e a tirar os quadros das paredes. Um amigo que viajava comigo, ainda descrente do possível perigo da passagem do furacão Irma por Cuba, insistia que isso poderia ser um procedimento regular do bar. "Ustedes nunca pasaron por un ciclón?" - Ariel nos perguntou curioso, pensando que furacões fossem comuns no Brasil. Não tinha muito segredo, era só ficar em casa nos próximos dois dias, e fazer um bom estoque de comida, água e rum. Vai ter muito vento, chuva e muita água; o furacão está mais para o lado leste da ilha então não se preocupem, sigam as orientações de segurança e tudo vai ficar bem. Ele agia da forma mais natural possível, na verdade em Havana não vimos ninguém desesperado a não ser os turistas de um hotel que estava sendo evacuado no Malecón, a beira-mar da cidade.

Mas o que antes pareciam só mensagens preocupadas de amigos e família alarmados pelos noticiários com foco na Flórida começou a se tornar mais real. Num país onde o acesso à internet é bastante limitado, apenas com wifi de acesso pago por hora em praças públicas e sem conexão nas casas, tudo ficava mais difícil para se informar. Passar por um furacão tendo acesso ao twitter e notícias em tempo real é uma ótima forma de estar preparado, mas isso não é uma possibilidade em Cuba. E provavelmente essa é também a razão do meu texto ter ficado bem atrasado para o timing de notícias.

Na rua um ambulante olhava em nossa direção e gritava "galletas para el ciclón, galletas para el ciclón", até demos uma risada, mas foi aquele riso com uma pitadinha de desespero. Vi que realmente precisaríamos de comprar comida para os próximos dias e saímos em busca  de cajitas, o marmitex que você consegue comprar pelo equivalente a um dólar em vendinhas de moeda cubana. Para encontrar uma dessas, é bom estar de olho no que a gente apelidou de "portinhas". Elas sempre tem um cardápio na porta que provavelmente terá pizzas, bocaditos, bebidas e refeições. Tenha sempre dinheiro em monedas cubanas para comprar coisas nesses lugares baratinhos, porque se eles reparam que você é um turistas desinformado vão tentar de dar um preço em CUC (moeda turística) que provavelmente vai ser mais caro.

Qué Loucura: uma das nossas portinhas preferidas em Centro Havana, na av. Galliano 

Qué Loucura: uma das nossas portinhas preferidas em Centro Havana, na av. Galliano 



Os supermercados em Cuba já são raros, e quando você encontra um, só oferecem produtos bem básicos, industrializados e infelizmente, com uma qualidade bem inferior ao que estamos acostumados. Na volta para a casa, as filas dos mercados dobravam os quarteirões, pois até o número de pessoas dentro do mercado é controlado (as bolsas também têm que ser guardadas em lockers). Desistimos de fazer um estoque muito profissional e voltamos pra casa com nossas cajitas, água e rum.


A casa da família em que nos hospedamos estava no segundo quarteirão do malecón, o primeiro já estava sendo evacuado e as tropas policiais de apoio estavam desviando o trânsito para outras ruas mais distantes do mar. Os aeroportos de toda Cuba estavam fechados e todas as viagens de ônibus suspensas até segundo aviso. Entrei uma última vez na internet para dar notícias pra família até que a conexão caiu de vez e seguido dela, a queda de energia que durou quatro dias. Lá em casa no Brasil, a luz cai com frequência, mas sempre volta em algumas poucas horas. Um país inteiro sem energia durante quatro dias faz muito mais do que deixar as pessoas no escuro. Nosso estoque de comida durou os dois dias planejados, mas quem disse que os restaurantes e supermercados abririam? E sem geladeira, conservar o estoque também foi complicado (saudades cerveja gelada) além do fato de passar os dias do furacão dentro de casa numa Havana de 40 graus úmida sem ao menos ter a ajuda de um ventilador.


A partir do meio-dia de sábado, a recomendação era de não sair nas ruas. A cada esquina havia policiais dando orientações e direcionando as pessoas que andavam a pé; já quase não se viam carros pela cidade. Nossa casa tinha um quintalzinho simpático em que passamos a tarde bebendo rum e conversando, como muitos cubanos estavam fazendo - era o que se tinha pra fazer. A chuva vinha de pouco a pouco, os ventos ainda eram tranquilos e até agradáveis como num dia normal. O Furacão Irma esperou a madrugada para deixar Havana acordada. Entrou a noite escura de sábado, cidade inteira apagada, e começaram os primeiros temporais. O barulho do vento era assustador e eu ouvia o mar avançando a Malecón adentro, as ondas quebravam nas paredes da nossa casa na segunda quadra, e a beira-mar já estava toda inundada. Depois fiquei sabendo que as ondas do mar chegavam a quase 11 metros de altura e a velocidade do vento beirava 100km por hora. Já era por volta de meia-noite e o sono não ia chegar com todos os estrondos e o calor; fui até a porta ver se podia ajudar de alguma forma, e todos da família estavam acordados na sala de entrada. Luis Miguel que estava nos hospedando colocava sacos de areia para impedir a passagem da água e um vizinho abençoado ajudava a todos do quarteirão. Uma chuva salgada nos molhava: não era chuva e sim a água do mar sendo levada com força pelos ventos do Irma. Deu até um apertinho de medo quando a filha dele disse meio chorosa que mesmo acostumada com furacões, as inundações nunca tinham acontecido com tanta intensidade na casa deles. Foi uma madrugada arrastada, eu mal podia esperar para amanhecer o dia. Não se viu - só se ouviu a passagem do furacão por Havana. Foram horas de barulhos do ventos levando postes, árvores gigantes e pedaços das antigas casas de Havana Vieja, nada foi extremamente destrutivo, porém quando se ouve um estrondo de concreto sendo levado pelo vento o que se imagina é um prédio inteiro no chão. Uma noite de sono inquieto e aflito, apesar da certeza absoluta de que nada extremamente trágico iria nos acontecer.

Esse vizinho passou a madrugada inteira ajudando o quarteirão junto com o Juan Miguel que estava nos hospedando. Ao fundo dá pra ver os primeiros momentos do malecón sendo encoberto de água.

Esse vizinho passou a madrugada inteira ajudando o quarteirão junto com o Juan Miguel que estava nos hospedando. Ao fundo dá pra ver os primeiros momentos do malecón sendo encoberto de água.


Sol chega, furacão se vai. Admito que as primeiras horas da manhã foram até meio cômicas, nossa casa era bem próxima da beira-mar e os cubanos com seus celulares se aglomeravam na esquina para filmar e tirar selfies com as ondas que ainda quebravam nervosas na parede do malecón. Mais uma prova de que em havana não vimos ninguém desesperado, as ruas todas inundadas, árvores no chão, algumas casas meio destruídas e mesmo assim a galera ria, conversava com os vizinhos, brincava de bóia e tomava rum às 9 da manhã; não tinha motivo pra chorar. É uma cidade preparada para esse tipo de desastre natural e as pessoas aceitam as contravenções com muita tolerância e bom humor.


Saímos de casa em busca de comida, aí sim tivemos motivos para chorar. Nada aberto, nem na principal rua turística.  A inundação das ruas estava funda e atingia quase a cintura na hora de passar. Gelo e cerveja seriam miragens, tudo que seria de mais necessário para umas férias no Caribe, e realmente não havia nada funcionando nem para comprar um pãozinho.  A solução para a primeira refeição do dia foram algumas castanhas que trouxe na mala e um Jack Daniels que tinha comprado no freeshop do Panamá. Os restaurantes e vendinhas seguiram fechados durante três dias, e encontrar comida foi um problema real no pós-Irma.


Cuba tem uma grande parte da renda dependente do turismo e sofre bastante nessa temporada de desastres naturais. Setembro é baixa temporada no Caribe justamente pela probabilidade de se ter furacões. Pra se ter ideia, duas das casas de salsa mais famosas de Havana foram destruídas pelo mar, e o malecón continuou completamente fechado mesmo após duas semanas da passagem do furacão. Eu sinceramente recomendaria escolher outro mês para visitar essa ilha maravilhosa, apesar que as praias desertas e cachoeiras vazias são presentes que se ganha apenas quando se viaja em baixa temporada mesmo.

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Mesmo com as diversas contradições e perrengues sendo um viajante estrangeiro na ilha (vou escrever sobre isso em outras postagens), a maravilha do turismo de Cuba é poder se hospedar nas casas de famílias cubanas, sempre gosto de falar que eles foram os primeiros a inventar o Airbnb. Tudo teria sido bem mais complicado se não estivéssemos com a família super atenciosa do Luis Miguel, a mãe dele fez café da manhã pra gente quando viu que não tínhamos mais nosso estoque de comida e o filho até preparou um jantar surpresa à luz de velas, um espaguete bem grudadinho e sem tempero, mas que foi lindo na hora.
 

Sem querer romantizar demais, mas o que mais vi nessa passagem do Furacão Irma foi como os cubanos têm essa responsabilidade em manter seu arredor seguro, ajudar os vizinhos e criar nos entornos de suas casas um verdadeiro senso de comunidade.  As pessoas se juntam para garantir a segurança do seu quarteirão, compartilhar água, comida, remédios e o que mais for necessário. Até o recolhimento das árvores caídas é feito pelos moradores até que passem os caminhões de coleta, o que aconteceu alguns dias depois. Apesar da polícia da cidade estar sempre presente nas orientações e ajuda em zonas de risco, a população não fica esperando a ação de terceiros para reagir às ações naturais que foram consequência do Irma. Já que tive que passar por essa experiência do furacão, de todos os países na rota do Irma, acredito que estava no melhor lugar para me sentir acolhida e tranquilizada. Mesmo sem acesso à internet e TV, Cuba fez com que eu me sentisse segura durante todo esse tempo sem precisar de fugir para lugar nenhum.