Caçadora de São João no Nordeste / by Bruna Brandão

Chega um momento da vida que você percebe que só o Carnaval não basta para um ano pleno e bem vivido. E se tem um lugar que a galera sabe disso é no nordeste. Sim, eu sei que em Minas a gente também tem festa junina, mas a gente tem 30 dias seguidos de festa junina por acaso, zé? Se você quiser se acabar em uma terça-feira de junho, pode ter certeza que você vai ter onde, e nessa festa vai ter muita gente com você (até gente demaais se for em Caruaru ou em Campina Grande)

Tem coisa marlinda do que os desenhos de cordel? Esse é do cordelista J. Borges

Tem coisa marlinda do que os desenhos de cordel? Esse é do cordelista J. Borges

Melhor do que só viajar é conciliar a visita com algum evento especial do lugar, é o que sempre digo. Vai conhecer Alter, vai no Festival das Águas. Vai pros Veadeiros? Pega a época do Encontro de Culturas. Olinda no carnaval e o sertão de Pernambuco na época de São João! Bom, São João mesmo é no dia 24 de junho, mas isso não impede essa galera de fazer um roteiro de arraiás durante o mês inteiro.

Antes mesmo de chegar, tracei uma rota de cidades que sabia que eram famosas de folia junina. Campina Grande, Caruaru, Arcoverde, Correntes, Petrolina, mas tem muito mais cidade e eu sou só uma Bruna.

 

Correntes, onde fica a Fazenda da Macuca era minha parada principal. Com cara de festival, camping e piscininha natural, a galera da Macuca organiza várias festas durante o ano, mas o bicho pega mesmo é no São João que leva o cortejo do Boi pra passar por dentro da área rural de Correntes com uma orquestra de frevo na vibe do forró, muita gente loca e um lamaçal daqueles que só se sobrevive de galocha. Falando assim parece lindo né? E realmente é! Que belezura de folia, galera soltinha surfando na lama e as cervejas sendo levadas por carros de boi, povo acompanhando de cima dos cavalos e a gente entrando pelos milharal seco, chuvinha fina acariciando o rosto sorridente de festa. E como se não bastasse o cortejo até cair a noite, assim que ele chega na fazenda a música começa de novo com forrózin pé de serra dos melhores.

Pra mim o melhor desse nordeste é dançar o forró tranquilo e gostosinho! Não se dança igual os forrozeiros nervoso do sudeste não, inclusive o pessoal de lá acha estranho essa giração, esses passinhos de lado e o troca troca de braços rebuscado que inventaram de colocar na dança chamegada deles. Make forró great again!

E como já sabemos, toda folia deve ser acompanhada de um bom banquete de ressaca no final. Para isso deixo a dica da Buchada do Gago, restaurante que fica em Garanhuns pertinho da fazenda da Macuca. Daquele jeitinho que a gente gosta, com cerveja barata e cardápio falado. O famoso mesmo de lá é a buchada de bode (sarapatel feito de miúdos costurado de volta e assado dentro do estômago do bichinho), que eu até gosto, mas não amo, então pra pedida certeira eu indicaria a costela de carneiro que ainda vem enfeitadinha com os queijo coalho tostado na chapa quente.

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Antes da Macuca, passamos a véspera do 24 (dia de São João é feriado oficial por lá) em Caruaru, onde deu pra sentir qual o nível de giganteza dessa festa no nordeste. Caruaru e Campina Grande são rivais no que se trata de São João, uma quer mostrar que é maior que a outra e mega estruturas com vários palcos são montadas pela cidade durante o mês inteiro. Enquanto uma é a Capital do Forró, a outra se divulga como O Maior São João do Mundo. Eu só conheci Caruaru e logo mais cês vão entender por quê.

Chegando em Caruaru, uma boa é ir pro Alto do Moura comer uma carne de bode ouvindo um forrózinho pra aquecer, mas tenha cuidado: como a época é bem cheia de turistas o pessoal gosta de passar a perna botando um couvert caro e o pior de tudo, servindo só skol custando dez reais (pesadelo). Desviando de tretas, rolou um bode guisado bacana e algumas várias gelas, mas nada muito especial que mereça destaque no meu guia de roliçagens (aguardem esse post). Dia de Simone e Simaria, Márcia Felipe e Troinha no palco principal, se alguém em Pernambuco te diz que um lugar vai estar lotado, multiplica isso por três e adiciona calor, gente empurrando e latões de skol. Eu adoro uma folia cheia, mas às vezes as coisas aqui passam dos limites (trauma de Nação Zumbi no Marco Zero). Troinha era o que eu mais queria ter visto foi impedido de subir no palco e só deu pra ouvir meu violão e nosso cachorro das coleguinhas, mas concordo com Elba Ramalho, o São João dessas cidades acaba ficando com um pouco da vibe de showzão de rodeio. Nem comidasboa tinha, e essa pra mim é a primeira regra de Festa Junina. O segredo mesmo é fugir pros palcos alternativos com uma galera massa, e aí sim as coisas podem dar bom! Pegamos um rock do Devotos - metaleiros de Recife - e dizem que nos outros dias teve Lenine, Eddie, Siba e alguns outros preciosos de pernambuco que a gente adora ouvir, mas como só tive quinta-feira na cidade, acabei ficando com a impressão da subaquêra de Simone e Simaria.

Caruaru a Capital do Forró!

Caruaru a Capital do Forró!

Campina Grande ainda continua no meu coração pra conhecer, mesmo sabendo da lotação, mas infelizmente não consegui encaixar no roteiro dessa vez. Sendo assim decidi investir em Arcoverde pra pegar a ressaquinha dos arraiá dançando muito côco.

Seu Assis contando um pouco da história do samba de coco pra gente ♥

Seu Assis contando um pouco da história do samba de coco pra gente ♥

Terça-feira em Arcoverde, muita gente me perguntando quecêtáinofazêlá porque o bom mesmo é pegar o fim de semana, mas teimosa que sou decidi arriscar. Caí numa casa linda, dica de uma amiga, lá ainda tinham uns remanescentes que não conseguiram ir embora da cidade e estavam dedicados na festa. Galera boa que me arrastou pra uma ruazinha em frente a sede do Samba de Coco Raízes de Arcoverde, tudo bem aconchegante de palquinho no chão e muito batuque. Com pouca gente todo mundo fica mais próximo, teve quadrilha com mestre no meio, roda de coco nervosa e ainda deu pra trocar uma ideia com o Seu Assis e conhecer um pouco da história da cidade de onde brotaram as raízes do samba de côco.

Depois de acabar o show, o jeito foi comprar muita carraspana (cachacinha com mel e raízes famosa de Arcoverde) e continuar a música por onde rolasse. Uma francesa radicada em Recife arrasando na sanfona, um pernambucano puxador de côco e pessoal animado soltando a voz fez a salinha da nossa casa tomar cara de festa e todo mundo ir dormir tarde, feliz e contente nessa terça-feira pós São João. A Macuca é linda, mas fiquei querosa pra passar o fim de junho inteiro em Arcoverde, acho que lá é onde a cultura popular pulsa mais e a música tradicional é mais valorizada. É tudo bem acolhedor, friozinho gostoso e pessoal se trombando na rua, me lembrou um pouco dos festivais de inverno em Ouro Preto. Teimosia e intuição de rolê certo ganhou mais uma vez!

Sede do Samba de coco Raízes de Arcoverde

Sede do Samba de coco Raízes de Arcoverde

Mesmo com fome de folia, não deu pra conhecer tudo, mas sei que também tem muita festa maravilhosa no Maranhão, na Paraíba e nos interiores da Bahia. Foi lindo conhecer mais de perto uma das minha tradições brasileiras preferidas ♥ minha dica: só vai!

 

 

Logo mais tem Guia Roliço de Recife aqui no blog!